12 Setembro 2006

A Independência Brasileira - Novas Dimensões Jurandir Malerba (org.)
Este livro conta algo de duas histórias: da historiografia brasileira e da independência do Brasil. De uma perspectiva historiográfica, ele retrata o estágio mais avançado da pesquisa empírica e da reflexão teórica a que chegaram em nossos dias os historiadores brasileiros, cuja obra se equipara à melhor produção internacional. No que tange a independência mesma, este livro escrito a muitas mãos conta, em sua unidade, a história da emancipação política brasileira, jamais descurando da análise estrutural - como a inserção do movimento da independência na era das revoluções e os fatores da desmontagem do “antigo sistema colonial”,- mas voltando o foco agora para perspectivas historiográficas inovadoras, como o peso das dimensões simbólicas, étnicas e culturais, a formação da opinião pública, os jogos de poder e interações de sujeitos históricos, inseridos em redes de sociabilidade e interesses jamais investigados com tanta profundidade. Historiadores renomados como Isabel Lustosa, Lilia Schwarcz, Hendrik Kraay, Jorge M. Pedreira, Márcia Berbel, Iara Lis Schiavinatto, Luiz Geraldo Silva, João P. Furtado, Kirsten Schultz e Anthony McFarlane contribuem neste livro, adequado para se repensar o Brasil de ontem e de hoje. Obra que começou a ser concebida em um seminário no Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford, para Leslie Bethell, que assina o prefácio, A Independência Brasileira representa um avanço significativo em nossa compreensão do processo da independência brasileira. Jurandir Malerba é doutor em história pela Universidade de São Paulo, professor visitante nas universidades de Oxford (Inglaterra) e de Georgetown (Washington, DC, EUA) e professor de teoria da história na Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita (Unesp, Franca) desde novembro de 2004. Organizou, entre outros, A história escrita: teoria e história da historiografia (Contexto, 2006), Representações: contribuição a um debate transdisciplinar (com Ciro F. Cardoso, Papirus, 2000) e A velha história: teoria, método e historiografia (Papirus), 1996). E é autor de Nossa gente brasileira (com Mauro Bertoni, Papirus, 2001), A corte no exílio (Companhia das Letras 2000), O Brasil imperial (Editora da UEM, 1999) e Os brancos da lei (Editora da UEM, 1994). Assessoria de Imprensa Lílian Andrade edassimp@fgv.br Tel: (21)2559-5550 / (21) 9769-1656 Comercial & Marketing Fones: 0800- 21 -7777 (21) 2559-5542 / (21) 2559-5543 editora@fgv.br www.editora.fgv.br Valor: R$ 42,00 / 432p. ISBN – 85-225-0555-1
HISTÓRIA ESCRITA - Apresentação Este livro não é uma coletânea de textos perdidos em revistas espalhadas pelo mundo, mas um produto intelectual, fruto de inquietações e problemas presentes no trabalho dos historiadores. Minha função foi, após conceber o livro, a de buscar textos que pudessem responder ou, pelo menos, encaminhar adequadamente as inquietações dos meus colegas brasileiros. Para atingir esse objetivo, procurei alguns dos mais relevantes historiógrafos em atividade e deles escolhi o texto que melhor se adequasse aos propósitos desta obra. Assim, não se trata de uma coletânea (no sentido de sair por aí coletando aleatoriamente), mas de um livro com propósito definido. O critério principal para a seleção dos textos que constituem a presente obra foi a intenção de compor um painel, o mais amplo possível, dos campos problemáticos presentes na construção de uma teoria da historiografia, com vistas ao aprimoramento prático de uma revigorada história da historiografia. Nesse sentido, os textos aqui reunidos oscilam da reflexão teórica acerca do conceito de historiografia para a reflexão crítica de uma epistemologia da história, passando necessariamente pelas potencialidades e limites metodológicos que cada caminho apresenta. Tratam-se, como é notório, de autores consagrados do pensamento histórico contemporâneo, provenientes das mais distintas tradições nacionais e simpatias teóricas. Embora possuam inúmeras interfaces, os capítulos compõem quatro grandes blocos temáticos. No primeiro, o foco recai primordialmente sobre o conceito de historiografia e o estatuto teórico do texto historiográfico. Elaborando síntese de vários ensaios importantes, Horst Walter Blanke ressalta a importância da teoria para a construção de uma renovada história da historiografia, esmiuçando as categorias fundamentais inerentes à sua prática e dedicando relevante espaço também à perspectiva de gênero na crítica historiográfica. O editor da revista Storiografia, Massimo Mastrogregori, oferece-nos um trabalho que aglutina reflexões desenvolvidas em vários momentos, dispersos em periódicos em três idiomas, que sintetizam seus entendimentos sobre as potencialidades da investigação em história da historiografia e os motivos que explicam, por um lado, o restrito interesse dos próprios historiadores profissionais, e, por outro, do público não especializado em geral por esse campo que nos esforçamos por cultivar. O problema da hermenêutica histórica está presente no ensaio seminal de Frank Arkersmit, que, partindo da aporia rortyana de que “a linguagem adere ao mundo”, ou seja, sobre o problema filosófico fundamental de como as palavras agem formalmente em relação aos objetos, analisa a hermenêutica historista das vertentes pós-modernas no campo historiográfico, com vistas a pensar as condições sob as quais um conhecimento seguro e objetivo seria possível. O segundo grande bloco a que aludimos poderia ser rotulado, na falta de melhor denominação, por ensaios com propostas mais teórico-metodológicas para o campo da história da historiografia propriamente dita. Aqui, o ensaio de Jörn Rüsen, formulando os princípios para uma análise historiográfica em bases comparativas e interculturais é paradigmático. Releva a importância da reflexão teórica, do tipo específico de debate no campo da teoria, e oferece indicações preciosas a respeito do método comparativo em análises interculturais (transnacionais) no campo da historiografia, ou seja, o que deve e pode ser comparado e como fazê-lo. Nesse sentido, o historiador japonês Masayuki Sato proporciona rara oportunidade para pensarmos que existem possibilidades e finalidades outras de se conceber e praticar o conhecimento histórico diferentes do modo como nós ocidentais estamos familiarizados. À sua maneira, introduz um elemento antropológico na reflexão historiográfica, como Rüsen também faz em seu ensaio. E como expõe também Angelika Epple, ao perguntar-se se as mulheres têm sua própria história e quais desafios específicos enfrenta o pesquisador ou pesquisadora que se propõe a (re)escrever a história sob tal perspectiva. A reconstrução da historiografia passa pela consideração da questão de gênero, que esteve à margem da historiografia ocidental até cerca de 30 anos atrás. O terceiro bloco temático conduzirá a discussão teórica da prática historiográfica para o campo epistemológico. Em ensaio inédito, Arno Wehling aprofunda hipóteses por ele mesmo aventadas em trabalhos anteriores, sobre as potencialidades da historiografia como lugar do exercício da reflexão epistemológica em história. Para tanto, retoma os autores paradigmáticos na fundamentação da história da historiografia como campo específico de investigação e desenvolve sua tese a partir das sugestões de Charles Canguillem, no sentido de que o “conhecimento da história de uma ciência, passando por suas sucessivas metodologias, resultados, dúvidas e certezas, constituía-se em excelente exercício prático para sua construção teórica”. O último bloco problemático seria quase um exemplo das implicações políticas do exercício historiográfico, que tomamos propositadamente no exemplo-limite da história do Holocausto. Em Probing the limits of Truth. Nazis and the “Final Soluction”, Saul Friedlander reuniu 19 ensaios que abordam aspectos variados da “reapresentação” do Holocausto. Na introdução à coletânea, deixa clara sua intenção de utilizar-se de um evento-limite para testar visões opostas da natureza da verdade histórica, em uma palavra, para “desafiar os teóricos do relativismo a encararem os corolários de posições que, de outra maneira, podem ser tratadas com facilidade em nível abstrato”. Hayden White, no ensaio incluído naquela coletânea e aqui traduzido, retoma suas concepções já bastante conhecidas acerca da inseparabilidade entre “forma e conteúdo” na narrativa histórica. A novidade, porém, é que Hayden White parece um tanto hesitante em face da questão da “realidade” do Holocausto, sobretudo quanto à “realidade dos fatos” e a suposta “equivalência das narrativas” do Holocausto. Para enfrentar o problema da equivalência entre todas as narrativas, White segue o mesmo caminho anterior: primeiro, reafirma que existe “uma relatividade inevitável em toda representação dos fenômenos históricos”; a seguir, busca contornar as conseqüências desse relativismo introduzindo dois conceitos aplicáveis ao caso do Holocausto: os conceitos de intransitive writing e middle voice. Os críticos de Hayden White serão veementes na refutação de seus esforços teóricos. O historiador Carlo Ginzburg, particularmente, é categórico na crítica ao relativismo e fulminante na análise das dimensões éticas do próprio debate, do ponto de vista das matrizes filosófico-políticas do idealismo de White. Ginzburg vai situar a questão ética nos argumentos que White utiliza em suas críticas a Vidal Naquet, na refutação que este último fez às “mentiras de Faurisson”. Contestando a alusão de Naquet ao “terreno da história positiva”, White critica o uso de noções como “mentira”, “erro”, “equívoco”, por implicarem conceitos como os de “realidade” e “prova” quando, segundo ele, “a verdade de uma interpretação histórica consiste precisamente na sua eficácia”. Ora, dirá Ginzburg, esse critério da “eficácia” aproxima perigosamente as idéias de White da ideologia nazi-fascista e será contra sua ética discutível que o célebre historiador italiano argumentará a favor da significação da leitura das evidências disponíveis, mesmo que essas se reduzam a um único testemunho – just one witness –, pois “não é a eficácia que constitui a verdade de uma narrativa”. Obviamente, qualquer lacuna fundamental pode ser apontada nesse conjunto, os inúmeros autores e ensaios não incluídos aqui. À semelhante objeção, porém, basta lembrar que o afã de abarcar o mundo não cabe entre os objetivos de uma antologia, que deve senão aspirar a ser uma seleção criteriosamente executada. Meus critérios foram expostos nesta breve apresentação, assim como meu objetivo final, que é o de, facilitando o acesso a textos seminais, angariar mais atenção por parte dos historiadores para a urgência do aprofundamento da reflexão teórica e para potencialidade da historiografia, como campo de experimentação e pesquisa. Certas editoras, tradutores e autores, de acordo com diversos critérios conceituais e normas gramaticais, distinguem história de História. Optamos, entretanto, neste livro, por grafar os termos história, historiografia e teoria da história sem maiúsculas, tanto por uma questão de padronização quanto para não desrespeitar as distinções e/ou ambigüidades conceituais (às vezes propositais) destacadas pelos pensadores da história que assinam os textos desta obra. Jurandir Malerba